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8 de Abril de 2020

"Sugar daddy" e "sugar baby": transparência nas relações afetivas (parte 1)

Flávio Tartuce, Advogado
Publicado por Flávio Tartuce
há 3 anos

Sugar daddy e sugar baby transparncia nas relaes afetivas parte 1

Artigo de José Fernando Simão

“O dinheiro é um tema que detona a emergência e a evidência de todos os contratos tácitos e implícitos que invariavelmente permeiam nossas relações.” (Clara Coria, em O Sexo Oculto do Dinheiro)

Há algum tempo, fui convidado pelos professores Oksandro Gonçalves e Marcia Carla Pereira para proferir uma palestra na PUCPR. O tema era "Análise Econômica do Direito", e tive o prazer de aprender com os professores Ricardo Lupion e Cesar Santolim e com os organizadores do evento, que gentilmente me convidaram para falar sobre os princípios sociais dos contratos.

Na palestra do professor Oksandro, tomei conhecimento de um site chamado Meu Patrocínio e imediatamente acessei a internet para ver do que se tratava. Passei, então, a conhecer a figura do sugar daddy.

Sugar — açúcar em inglês — e daddy — papai — são duas palavras que, somadas, indicam que o homem, mais velho e, por isso, papai, se dispõe a “bancar” mulher mais jovem. Não se trata de um site de prostituição em que homens, após manutenção de relação sexual, pagam pelos serviços prestados. É uma relação em que o homem mais velho tem prazer em se relacionar com mulher mais jovem que gosta de ser mimada, ganhar presentes, viajar, comer em bons restaurantes, sair para lugares chiques. Já o homem mais velho, normalmente em uma fase da vida pela qual poucas mulheres mais jovens sentem atração, paga para ela e proporciona alguns luxos, prazeres que a ela estariam negados em razão do custo.

Imagino que o leitor deva estar se perguntando: não é possível que uma mulher mais jovem se apaixone por um homem mais velho? A resposta é positiva e isso acontece. O site simplesmente proporciona que, se isso não ocorreu com você, homem com mais de 50 anos, com recursos financeiros, você possa estar na companhia de uma mulher mais jovem que dividirá com você os prazeres da vida: viagens, restaurantes, shows, espetáculos etc.

Para as candidatas a sugar babies, o site informa: “Você merece o melhor que o mundo tem a oferecer e está preparada para agarrar uma oportunidade. Quer um mentor, alguém que te apoie nos estudos ou na carreira, emocional ou financeiramente. O Meu Patrocínio te ajuda a encontrar alguém generoso e experiente para um relacionamento maduro, transparente e sem joguinhos, cheio de viagens fantásticas e mimos”.

Já para os possíveis sugar daddies, o texto é o seguinte: “Você trabalhou muito para se tornar a pessoa bem-sucedida que é hoje. Quer o melhor que a vida tem a oferecer, e prefere que seja com alguém que compartilhe dessa energia e tenha conteúdo suficiente para trilhar o caminho com você, onde quer que seja. O Meu Patrocínio te ajuda a encontrar mulheres atraentes e promissoras para um relacionamento verdadeiro e transparente”.

Os adjetivos indicam que o que se oferece é algo maduro, verdadeiro e transparente. O casal não precisa “de joguinhos” para atingir seus objetivos. A relação é clara. Transparência é o que vende o site.

Transparência significa que as partes não ocultam seus interesses. Ela não quer uma relação amorosa, nem ele. São pessoas que buscam companhia e convívio com regras bem claras: "Tudo é combinado, sem mal-entendidos", segundo o texto do site.

Em minha opinião, o site reflete aspectos claros dos novos tempos ou pós-modernidade.

A primeira marca desses tempos é que as pessoas buscam diversas formas de prazer, além das tradicionais. Há muita criatividade e hedonismo. Não é necessários buscar o prazer apenas no sexo, apenas no namoro, apenas no casamento, apenas nas viagens, apenas nos restaurantes e nos presentes.

A segunda marca dos tempos em que vivemos é que são tempos de experimentar novos modelos. Poucos dizem, ninguém escreve, mas muitos sentem que o modelo construído para os relacionamentos heterossexuais e copiados pelas famílias homoafetivas de casamento ou união estável é um modelo decadente e em franca mudança.

No século XX, o Direito mudou apenas as relações entre homens e mulheres por meio da igualdade e ampliou às pessoas do mesmo sexo o acesso a modelos em crise e de pouco ou nenhuma efetividade e afetividade. O século XXI assiste a um questionamento dos modelos de relação e admite que há relações diferentes das tradicionais.

A terceira marca é a transparência. Os aplicativos de relacionamento, que são muitos, exigem que o utilizador seja direto: o que quer, quando quer e em que condições quer.

É isso que faz o site Meu Patrocínio. Demonstra que interesse é palavra avalorativa, nem positiva nem negativa, e que todas as pessoas em toda e qualquer relação o tem. Interesse não é algo pejorativo ou negativo. É simplesmente a vontade de estar com. Nada mais.

Mas há mais a compreender. Na parte 2, Giselle Groeninga fará considerações a partir da Psicanálise a respeito da ideia de transparência nas relações afetivas.

José Fernando Simão. Professor da Faculdade de Direito da USP. Livre-docente, Doutor e Mestre pela USP. Advogado e Consultor Jurídico.

66 Comentários

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Dr. Tartuce,
boa tarde.
Permita-me divergir. Se houver dinheiro (presentes mimos, agrados, viagens, jantares) haverá relação. Se não houver dinheiro dificilmente haverá relação. Pode ser mais sutil, mas ainda assim é o oferecimento de favores, em regra de natureza sexual, em troca de retribuição patrimonial (não apenas o pagamento da faculdade ou a abertura de um negócio, mas jantares, viagens etc).
Nada impede que venha a surgir o sentimento. Mas, de início, a única diferença que existe, para mim, entre isso e a prostituição das esquinas da cidade é o refinamento que cerca essas relações.
Grato por compartilhar o ensaio. continuar lendo

Parabéns pela Lúcida manifestação Dr. Gonzalo, como sempre!!! continuar lendo

Absolutamente de acordo!!! continuar lendo

Concordo em gênero, número e grau. continuar lendo

Café Photo de São Paulo - SP com a vantagem de ser "ao vivo e a cores".

Obs.´. Realmente a esquina também é "ao vivo e a cores". continuar lendo

Concordo plenamente! A moda agora é substituir as palavras, antigamente tidas como grosseiras, para que o verdadeiro significado delas não choque mais as pessoas mais "sensíveis" ou que possuam limites morais mais elevados. começou com o termo "garota de programa". continuar lendo

Tbém concordo. Pode mudar o nome, mas o conteúdo é o mesmo. continuar lendo

Perfeito, concordo plenamente. continuar lendo

Não só é mais sutil, como tem mais classe, mais "glamour". E a tradução brazuca para "sugar daddy" é Paitrocinador... continuar lendo

É hipocrisia tratar do assunto como prostituição, a menos que queiramos chamar nossos ancestrais de cafetões por terem pago dotes por suas filhas. Casamentos arranjados e por interesse sempre existiram, o conceito de casamento por amor é algo muito recente em nossa história. continuar lendo

Já convivi com essas pessoas que saíam por interesse. Se auto intitulava "acompanhante masculino". É uma forma mais refinada de prostituição, somente e apenas. continuar lendo

Direto ao ponto. Nada a acrescentar. continuar lendo

esse site só oficializou algo que ja existia há muito tempo. Deixa claro o objetivo da relação e ambos os parceiros não perdem tempo com joguinhos amorosos e obscuridade. Agora se é moralmente aceito é outra discussão. Acredito que nesse caso como as regras estão pre estabelecidas não há o que se falar em crime, enganos etc. Parabéns pelo artigo. continuar lendo

Em resumo : Estamos vivendo cada dia mais em uma sociedade LÍQUIDA em que valores,regras de conduta,comportamentos,interesses, etc.. mudam a cada raiar de sol. Tal processo de deu ainda no Século XVIII com o início da Revolução industrial., onde o mundo começa a ser apresentado a tecnologia e desapegar a crenças e costumes cotidianos. Sobre o texto, achei interessante embora já havia pesquisado sobre isso, tem até gente ''famosa'' que possui tais patrocinadores: Núbia Oliver por exemplo já declarou que tem, e digo a você amigo a unica coisa que mudou nisso tudo é a forma ''institucional'' (sites especializados) que a coisa tem porque casos de homens mais velhos bancando garotinhas mais jovens já existe e isso é de longa data. continuar lendo

Acho certo. Velhos babões podem querer ninfetinhas e essas a eles. Desde q seja feito as claras, com transparência, não vejo problemas. Acho inclusive q a lei, q proibe velhos babões de se casarem com o regime de comunhão q eles quiserem a partir de 70 anos, se não me engano, é errada. Ele q decide o q ele quer fazer com seu patrimônio. O Estado até deve assegurar se os filhos forem menores de idade, pois os pais têm obrigação de provê-los. Mas depois de filhos maiores, se o velho babão quiser uma ninfetinha para sustentar, é direito dele. Só teria sentido proibir isso se prostiuição fosse crime e prostitutas presas. Mas já q permitem prostituição e não prende prostitutas, para mim, isso é lícito. continuar lendo

Intervenções do Estado na vida privada. Normal, fazer o quê? continuar lendo

Existe também o Sugar Mommy, onde rapazes mais jovens, saem com mulheres mais velhas. Dizem os rapazes que são mulheres bonitas com mais de 40 anos que querem só sexo e pagam por isso.
Prostituição as claras . continuar lendo

Já vi um filme real assim com netos em outro estado aguardando herança de biquinhos abertos na comodidade de nada lutar na vida pra terem os seus, mas eis que o vovô começa namorar uma pouco mais nova. Os netos voaram do outro estado, deu polícia no meio. continuar lendo

O mais engraçado é o articulista ter dado o caminho d0 site para cadastro.
Basta escolher se vai faturar ou gastar e se cadastrar para começar a usufruir.
Boa sorte. continuar lendo